MANIAFESTO

Escrevo esse documento tanto como uma promessa de superar a existência miserável em que estive mergulhada até recentemente (e que de muitas formas ainda estou) quanto como um norte para me guiar nesse objetivo. Os pontos aqui listados não vão ser alcançados imediatamente, nem mesmo antes de muito tempo, mas eu vou seguí-los e mudar, um passo de cada vez.

Eu preciso me livrar do enorme rancor acumulado ao longo de todos esses anos. Dar amor e carinho às pessoas, seja minha família ou amigues. Dar atenção a quem já está em minha vida, conhecê-los melhor e passar mais tempo juntes. Conhecer pessoas novas, virtualmente e (especialmente) presencialmente, me expôr a novas vivências, culturas e existências. Ser mais vulnerável e permitir às pessoas entrarem na minha vida.

Eu preciso continuar a cuidar dos meus problemas, sejam físicos ou mentais. Me exercitar mais, comer de forma mais saudável, cuidar de meu corpo num geral. Parar de ver o mundo e as pessoas que nele habitam de forma tão negativa. Ser gentil comigo mesma, não me forçar além de minhas capacidades e não me julgar de forma tão extrema e injusta. Eu sou apenas uma pessoa, e estou tentando fazer meu melhor.

Eu preciso pensar sobre mim e me entender melhor, quem eu sou, o que eu quero, o que eu vou ser e alcançar. Refletir sobre meus valores e começar a seguí-los. Cuidar de minha apresentação, treinar voz, aprender maquiagem, pintas unhas, descobrir estilos de roupa e de cabelo. Pensar sobre minha identidade de gênero, não em termos do que eu sinto que conseguiria alcançar com minha aparência física, mas do que eu realmente quero.

Eu preciso sair mais. Conhecer minha cidade, e depois outras regiões do meu país e quem sabe do mundo. Parar e vislumbrar a natureza por um tempo, esquecer de minhas preocupações e me conectar com algo mais real que telas de computador e anúncios em outdoors. Respirar.

Eu preciso me informar políticamente. Não mais me expôr a notícias horríveis e me tornar paralisada, mas lutar por um mundo melhor, me organizar em comunidade e fazer doações e caridade. Eu estou e até certo grau sempre estive em uma posição privilegiada, sempre com um teto para morar e comida para comer, e preciso reconhecer que muitas pessoas não tem isso.

Eu preciso criar, não só consumir. Mesmo que eu descubra não conseguir me conectar com o mundo de forma artística como eu hoje desejo, eu preciso de um jeito ou de outro trazer à existência coisas que me prendam mais a esse plano terrestre, que me façam sentir que vivo e não só que existo.

Eu vou ser melhor. Muito melhor. Por mim e pelos outros.